As dificuldades de coordenação entre os diferentes serviços, a má gestão e as dificuldades na gestão de projectos auguram dias difíceis para a maioria dos cidadãos. Não é fácil circular pela Rua do Mufulama, que desde o início do ano faz parte do município de Camama (antes era Distrito Urbano), quando a chuva decide aparecer em força.
Aberta à circulação há pouco mais de um ano, a ausência total de sistemas de drenagem coloca os transeuntes, as viaturas e a própria infraestrutura em risco, ao mesmo tempo que os sinais de degradação são cada vez mais evidentes.
O exemplo da Rua do Mufulama estende-se para outras obras concluídas recentemente e também para os restantes municípios da capital do País. No município de Talatona, a conhecida Rua do MAT, sobretudo no troço entre o “condomínio dos ministérios” e o cruzamento da Angomart/Logística, é outro exemplo dos problemas de gestão urbana e de infraestruturas que afectam a qualidade de vida em Luanda. “Aqui não fizeram nada…
Quando chove muito, a água descai de dentro do bairro e arrasta pedras, areias e lixo para o meio da estrada. Alguns carros até chegam a flutuar na água”, explica Pedro Cruz, 22 anos, que mora naquele bairro sem serviços básicos adequados e por onde circulam águas residuais de cor escura a qualquer hora do dia. Os resíduos acabam por ser despejados na rua, com efeitos negativos para o asfalto (os produtos químicos misturados nas águas residuais acentuam a erosão) e para a circulação de viaturas. “Aquelas obras aguentaram dois meses. As chuvas de Dezembro estragaram boa parte do que fizeram aqui”, sublinha Pedro Cruz, resignado entre a realidade esperada e os buracos na via que, em poucas semanas, já dão novos sinais de vida.
O jovem cidadão refere-se, mais concretamente, aos trabalhos de recuperação daquele troço de estrada, que ocorreram durante o Cacimbo de 2024. As obras foram realizadas pela Empresa Nacional de Infraestruturas Básicas (ENCIB), uma entidade pública controlada pelo Governo da Província de Luanda (GPL).
Durante a intervenção técnica, não foi colocada nenhuma placa informativa sobre os custos envolvidos e as acções previstas nesta operação. Embora a rua esteja em condições aceitáveis para a circulação de pessoas e viaturas, a acelerada degradação, apenas seis meses depois da aparente conclusão das obras, indica que os problemas vão acentuar-se com a utilização diária e a iminente chegada de mais chuvas fortes. Tanto na Rua do MAT como na Rua do Mufulama, que foi pavimentada no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), devido à grande quantidade de areia que se vai depositando em determinadas zonas do pavimento, são as intervenções constantes dos serviços municipais e dos próprios moradores e comerciantes que mantêm as infraestruturas operacionais, apesar de terem sido construídas ou reabilitadas nos últimos meses. Maus projectos “Parecem projectos amadores”, considera Francisco Lopes, engenheiro hidráulico-sanitário. “A falta de qualidade do projecto fica demonstrada pela necessidade de intervenções constantes para manter as vias disponíveis”, defende o especialista.
O Expansão questionou o GPL sobre o custo e a qualidade dos projectos mas não obteve respostas até ao fecho da edição. “Por exemplo, a Rua do Mufulama foi construída numa cota acima das casas. E ao longo dessa intervenção foram fechadas linhas de água sem o devido encaminhamento”, explica Francisco Lopes, que nas suas intervenções públicas tem defendido a necessidade de criação de um Ministério das Infraestruturas, que seria responsável pela definição de parâmetros técnicos e pela fiscalização dos próprios projectos, independentemente dos promotores envolvidos.
Francisco Lopes defende uma visão integrada, onde todos os projectos de água, saneamento, energia, ruas, estradas, entre outros, passariam a ser geridos em conjunto, debaixo do conceito “infraestrutura”. “Muitas das ruas que estão a inaugurar não têm passeios (e quando têm, os utilizadores de cadeira-de-rodas, por exemplo, não conseguem circular em segurança), não têm esgotos, não têm estacionamento, não permitem ultrapassagens de outras viaturas.
A Rua do Mufulama não deve ter mais de 6-7 metros de largura”, descreve Francisco Lopes, como que a exemplificar a falta de conexão entre as diferentes vertentes técnicas relacionadas com infraestruturas e a gestão urbana em geral.